Opiniões

A missão da universidade aqui e agora (2ª parte)

Rosendo A. Yunes

9.setembro | 2019

Um pouco de história: Não devemos esquecer nunca que a universidade nasceu na Idade Média numa época de efervescência intelectual dentro da Igreja católica. Nasceu com a distinção de studium e  imperium. O studium era a universidade, procura da verdade, o imperium era o poder. Sabemos o que o poder era em essa época. A distinção é que o imperium tinha que lidar com o exercício do poder e a universidade com a procura da “verdade”.

Devemos lembrar a grande greve dos estudantes na Universidade de Paris em 1229 e 1231, na qual muitos participantes perderam a vida nos embates com a polícia real, na luta pela autonomia universitária.

O incentivo era a necessidade de preparar o clero, como profissionais para as funções públicas, especialmente o direito e medicina. Uma caraterística do período, relacionada ao corporativismo, era a autonomia frente aos poderes como os eclesiásticos, comunais ou monárquicos.

Durante quatro séculos até o período da renascença a noção de universidade, como significa a palavra unum vertere = universitas que era levar diversos tipos de conhecimento a um elemento unificador que era a teologia.

A partir do século XVI a universidade mudou, se tornou algo funcional para o exercício do poder:

1) Primeiramente, o poder militar e político, esperava-se que a universidade em alguma área podia aumentar o poder militar o político da nação.

Em 1871 o autor francês, Ermes Renan, publicou um livro intitulado “A reforma intelectual e moral” onde Renan se perguntava: Como é possível que a Prússia tinha sido capaz de derrotar o grande exército de Napoleão. O exército francês era muito superior em soldados e armas, mas perdeu a batalha. A resposta de Renan foi que o exército prussiano colocou a universidade Humboldt ao serviço do poder militar. O exército prussiano conseguiu colocar em pratica o que hoje denominamos estratégia.

A universidade de Berlin foi fundada em 1810 por Humboldt e melhorada pelos escritos de grandes filósofos alemães como Schelling, Fichte, Steffens e Hegel a ideia básica era de que a universidade devia servir aos interesses do estado nacional. Hegel que foi Reitor em 1829, deu impulso a esta ideia ao fortalecer os estudos que facilitassem o desenvolvimento do poder militar e político.

2) Na segunda fase da época moderna aconteceu outra mudança muito importante. Esperava-se que a universidade servisse ao poder, mas não tanto ao poder militar e político, e sim ao econômico.

O
 principal lugar onde esta mudança aconteceu é nos EEUU.  A economia americana se tornou o que conhecemos atualmente: imperial. A sociedade civil americana conseguiu colocar a universidade ao serviço do mercado.

Universidade ao serviço do mercado Este fato, está claramente expressado na Declaração de Lisboa de 2007. Podemos observar ao menos 3 princípios:

1º), uma estrita colaboração entre universidade e o universo empresarial para alcançar a empregabilidade dos estudantes. Ou seja, ela se deve organizar considerando as necessidades do mundo dos negócios.;

Assim, a universidade não precisa ser um lugar de educação. Somente um lugar de instrução. Por isto o verdadeiro professor está em declínio. Os professores se tornaram instrutores. Não se espera que se eduque a alguém, fazer isso pode ser acusado de doutrinação, ou seja, manipular as mentes dos estudantes tolhendo sua liberdade de escolha. No passado não era assim, se solicitava que o professor falasse sobre valores expondo e comparado criticamente as várias alternativas. Assim, ao falar da liberdade de mercado, não se pode falar da ética de esta concepção darwinista. A ética não tem nenhuma relação com e economia?

2º) A pesquisa como competição: esta é uma questão muito séria. A ideia de que somente o primeiro a descobrir algo ou inventar algo seja recompensado por verbas e outros benefícios, quem fica em segundo lugar na ganha nada. Novamente é a meritocracia.  Espera-se que a pesquisa produza algo original com aplicação econômica. Significa assim, que se pode apresentar o melhor projeto do mundo, mas se os resultados de este projeto não apresentam ganhos econômicos, o projeto será considerado irrelevante.

Por este motivo observamos como nosso governo atual, economicista e neoliberal, não valora as ciências humanas como a sociologia e a filosofia;

3º) A pesquisa que deve ser cooperativa deve-se tornar competitiva (Declaração de Lisboa 2007) A procura da verdade sempre foi um empreendimento cooperativo, o conhecimento era compartilhado pelos membros da equipe. Agora isso tem mudado; é a regra do “efeito superstar” o vencedor leva tudo o perdedor perde tudo. Este fato é causado pela eficiência e o eficientíssimo.

Nas crises financeiras se estimula a competição posicional (egoísta) e não a competição cooperativa (altruísta). A competição  posicional é a competição sem limites que observamos no mundo moderno, na guerra econômica entre EEUU e China, na queima da Amazônia pelos fazendeiros, garimpeiros e relacionados, no aumento da violência, no desrespeito a vida, a dignidade e na banalização do ser humano pelos que pregam a Deus e ganham fortunas, fazendo ao povo pobre e não tão pobre acreditarem em falsos milagres. Quando tudo o que Deus nos dá é gratuito.

Nesta crise de orçamento universitário imposta pelo MEC, ou seja, o governo opressor e neoliberal, eles desejam que os professores e estudantes tem que competir uns com os outros pelas escassas verbas, assim se eu ganho, você perde. E se você perde eu aumentarei minhas possibilidades de alcançar uma posição mais alta ou mais verbas para meu lab. Estes são fatos duros, más são fatos.

“Certa vez, um discípulo caminhando com seu mestre, fez a ele a seguinte pergunta:---Mestre, qual a diferença entre o céu e o inferno? O mestre, depois de um breve instante, respondeu- imagina um lugar (Brasil), onde existem muitas pessoas e imensos montes de comida, caracterizando uma fartura inesgotável, onde não deveria haver em hipótese alguma, a fome. Porém, a maioria dos indivíduos, para alcançar a comida, só dispõe de um bastão de 2 a 3 metros de comprimento e, por isso, não conseguem levar a comida até sua própria boca.  Mas, muito poucos pela ideologia do mérito, a eficiência e a competividade têm bastões de 6 a 7 metros e podem colocar uns na boca dos outros a comida até sua obesidade, diante dos olhos dos que tem fome. Este é o inferno. Imagine agora outro lugar (Suécia, Dinamarca, etc.) que assim como o primeiro tem enormes montes de comida e cada indivíduo também possui um bastão de 6-7 metros para se alimentar, e não conseguem levar o alimento a sua própria boca, mas ao invés disso, as pessoas alimentam umas às outras ,todas sem excluídos, vivendo em fartura constante e ninguém passa fome. Este é o céu”

Conclusão: 1º) A universidade deve lutar contra a ideologia da educação e pesquisa subordinadas ao mercado, lutar contra o eficientíssimo e a competição individualistas e egoístas que levam a violência e não a paz humana.

2
º) A universidade deve estimular a cooperação, o trabalho em equipe, a gratuidade de nossos dons e por isto devolver essa gratuidade, ao povo que é quem mantem a universidade.
Todos, incluído quem escreve, somos apanhados por estas ideologias sem tomar consciência delas. Por ej.na química muitas vezes publicamos trabalhos nos quais nos fizeram espectros de RMN, IR, UV etc. e os técnicos não participam como autores, nem colocamos um agradecimento para eles. Mas, essa é a costume da meritocracia e nós a seguimos.
 


Rosendo A. Yunes
Professor aposentado

 
 

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