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Homeschooling e isolamento social

Tem sido discutido em nosso país nos últimos tempos o ensino exclusivamente em casa, pelos pais e professores especialmente contratados. Como muito que se discute e adota no Brasil, é uma ideia importada dos Estados Unidos, de consequências muito complexas. Neste país, há milhões de crianças aprendendo fora das escolas, principalmente por questão religiosa, evitando que seus filhos sejam “corrompidos” por teorias estranhas, como o darwinismo.
 
O ensino no Brasil tem passado por várias fases, desde os tempos em que os filhos de “boas famílias” aprendiam em casa, com preceptores, os menos ricos conseguiam manter seus filhos nas poucas boas escolas públicas e o “resto” mal era alfabetizado, passou pelo desenvolvimento de escolas particulares de alto nível e degradação das públicas, e agora veio esta moda de homeschooling.
 
Não se pode negar que os pais têm grande papel na educação dos filhos, passando para eles seus conceitos e conhecimentos, a depender do tempo disponível, do conhecimento e da capacidade de transmissão e da aceitação dos jovens.
 
Com a vida atribulada que grande parte dos pais tem, em geral com pai e mãe (“sem pai se forma desajustados”, como diz um candidato), é difícil imaginar como se pode ensinar algo aos filhos, especialmente se eles não forem à escola. Mal se tem tempo para perguntar ao filho o que ele fez durante o dia ou ver suas notas, imagine-se ensina-lo mil assuntos. Só se pode pensar em ensinar em casa no caso de se poder pagar (e fiscalizar) preceptores, algo que só os componentes do 1% superior provavelmente pode fazer, isto se não estiverem ocupados ganhando ou gastando dinheiro.
 
Uma criança assim ensinada provavelmente vai ser induzida a pensar exatamente igual aos pais, especialmente em termos de visão do mundo, incluindo religião, sexualidade e convivência com os iguais e os diferentes. Sem contato com a multiplicidade de pessoas com diferentes personalidades, é difícil imaginar como ela poderá conhecer diferentes opiniões e gostos, e tenderá a viver numa bolha, ficando parecida com o protagonista de “Muito Além do Jardim”.
 
Talvez esta moda seja devida a uma tendência a isolar os filhos do mundo, considerado complexo e perigoso demais, podendo o jovem ir para “o mau caminho”. Como diz uma propaganda de “mulher que apoia Bolsonaro”, “não quero que meu filho vá aprender a ser gay na escola”. Há sites defendendo o homeschooling alegando que os pais podem levar seus filhos para conviver com outros jovens em parques e clubes; isto dá a impressão que estão visitando um zoológico, a não ser que só conversem com os filhos dos amigos dos pais.
 
Nosso país tem demonstrado nas últimas décadas um crescente desprezo por professores, que são acusados de serem preguiçosos (“só vivem tirando licença”) e nada ensinar de útil para a vida, merecendo ganhar mal e ser desprezados. Engraçado que, se perguntarem para um professor de colégio de elite se está satisfeito, ele provavelmente responderá que é muito bem tratado e está bem. Obviamente, esconde muito bem eventuais preferência políticas e de comportamento diferentes da direção e dos pais.
 
Esta proposta de ensinar em casa leva ao grande risco de isolamento dos jovens, reforçando a tendência a formação de castas. Um jovem assim educado jamais perceberá que ateus, umbandistas, gays, comunistas e outros “diferentes” são pessoas que merecem ser ouvidas e respeitadas em suas opiniões e preferências. Como isto será possível, se eles não os conhecerem ou só os enxergarem pelas lentes fornecidas pelos pais? Eventuais agressões de colegas (bullying), precisam ser contornadas e resolvidas com diálogo ou, se necessário, com reação adequada, com o auxílio dos pais. Não são desculpa para isolamento.
 
Um colunista da Folha de São Paulo, adepto do “cada um decide tudo em sua vida” sem intromissão de governos, especula que, se estes obrigarem os pais a educarem seus filhos na escola, nada impedirá que em breve os obriguem a ter religião, comer frutas e fazer exercício. Isto é obviamente um exagero, a não ser que entremos novamente numa ditadura, como muitos temem e alguns querem.
 
Em resumo, tenho dificuldade em ver alguma vantagem no homeschooling, e há palpites demais de curiosos e/ou fanáticos na internet. Não sou especialista em educação, apenas um professor universitário aposentado após quase 40 anos de aulas, com muita leitura, e gostaria que conhecer outros argumentos favoráveis a esta prática.
 


Carlos Brisola Marcondes
Professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia/CCB

Manchete

Esta proposta de ensinar em casa leva ao grande risco de isolamento dos jovens, reforçando a tendência a formação de castas. Um jovem assim educado jamais perceberá que ateus, umbandistas, gays, comunistas e outros “diferentes” são pessoas que merecem ser ouvidas e respeitadas em suas opiniões e preferências. Como isto será possível, se eles não os conhecerem ou só os enxergarem pelas lentes fornecidas pelos pais?


Postado

19.setembro | 2018 | Carlos Brisola Marcondes


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