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Desafios da gestão universitária

Precisamos de mudanças profundas. Ainda não saímos da crise institucional que exigiu essa eleição. No entanto, no processo de escolha, três grandes perspectivas de gestão foram apresentadas e aglutinaram correntes de apoiadores: uma mais ideológica, outra mais pragmática (de linha de continuidade) e a terceira, mais acadêmica (se me permitem, erroneamente vista ou apresentada como menos politizada). No atual quadro de crise interna (nossa universidade) e externa (nosso país), onde as universidades vêm perdendo apoio (especialmente financeiro) e influência quanto ao seu papel crítico e de força auxiliar impulsionadora ao desenvolvimento da nação, seria salutar que pelo menos essas três perspectivas se encontrassem e se dispusessem a um diálogo institucional, fora da habitual disputa de poder. Um diálogo que pensasse a UFSC em seu futuro, mesmo havendo divergências importantes (por exemplo quanto à relação público-privado; ao produtivismo e qualidade acadêmica; práticas democráticas e responsabilidades públicas). Seria salutar que pudessem construir uma pauta comum e construtiva-propositiva para a UFSC, por exemplo sobre: 1) sua função regional (dado que se interiorizou); 2) como alcançar e garantir um padrão de qualidade acadêmica mais elevada e equilibrada entre todas ás áreas do conhecimento (em pesquisa, ensino e na cultura); 3) como democratizar-se, no sentido de oferecer equanimemente a qualidade acadêmica e soluções científicas a todos os setores da população, em como dar transparência a seus atos e em como garantir informação plural, etc; e 4) como reestruturar a gestão universitária, tornando-a mais eficiente, integrada e profissionalizada.

Olhando com rigor para o funcionamento de nossas universidades federais, UFSC inclusa, perceberemos que o financiamento para a manutenção e o pleno alcance de suas finalidades acadêmicas é determinado não só pelo orçamento da União, mas por verbas de diferentes órgãos públicos e agentes privados. Do orçamento da União, mais de 80% vai para o pagamento de pessoal, o restante para despesas correntes (manutenção da estrutura física, luz, água, etc.), sobrando pouco para investimentos (laboratórios de ensino, assistência, material didático, etc) e praticamente nada em recursos para a expansão de cursos, vagas e/ou estrutura física, que dependem de projetos específicos. É de se esperar, portanto, que as universidades (reitorias) se ocupem da manutenção do ensino de graduação, que dependem essencialmente de recursos aportados pelo MEC. No tocante ao desenvolvimento da pesquisa e da pós-graduação, como é sabido, dependem de agentes de financiamento específico (CNPq, FINEP, MEC, Capes, FAPs, empresas e eventuais parceiros sociais), que têm regras próprias de aplicação e prestação de contas dos recursos disponibilizados. Portanto, os verdadeiros gestores das universidades são todos esses agentes que a financiam e não somente suas respectivas reitorias.

O problema desse sistema de financiamento é a limitação às ações de uma reitoria. De um lado temos a força imposta pelos agentes externos, ditando os objetivos, as atribuições e as políticas universitárias nos âmbitos específicos. De outro lado, a função residual da gestão interna (reitoria) que vê comprometida suas responsabilidades, inclusive estatutárias. Não é por acaso que convivemos com problemas crônicos, como os das instalações físicas, materiais e tecnológicas insuficientes, inadequadas e depreciadas. Apesar disso tudo a UFSC cresceu e se expandiu ao longo dos seus 57 anos, mas muito mais por meio de programas especiais do MEC e via projetos de pesquisa. Uma expansão que se deu sem a correspondente e eficaz organização administrativas, basta observarmos os inúmeros casos de sobreposições de funções e estruturas e, especialmente, a existência de um corpo de pessoal técnico-administrativo especializado em educação (TAEs) que, ano após ano, vem expressando seu descontentamento pela ausência de uma verdadeira carreira universitária, fazendo com que a “máquina de gestão” não funcione em toda sua potencialidade. Os TAEs têm apenas uma malha salarial, mas não uma verdadeira carreira que oportunize progredir na estrutura universitária. Suas lutas sindicais e atitudes políticas em processos decisórios, em todas nas universidades federais, parecem refletir esse grito contra a desprofisisonalização da categoria. 
Levantar essas questões relativas à gestão universitária não exime das responsabilidades o corpo dirigente (reitorias) das IFES, pelo contrário, procura mostrar as limitações que enfrentam, indicando também um outro papel que precisam desempenhar: atuar como agentes políticos, especialmente externo, indo buscar recursos e atuação coletivamente - via ANDIFES - visando alterar o quadro de controle-dependência financeira que as IFES enfrentam. É necessário resgatar o estatuto da autonomia universitária! As universidades brasileiras não se desenvolvem também por conta dessas características: constituírem-se como órgãos de governo e não uma instituição de Estado. 

Nossa UFSC não foge à regra. Acabamos de eleger um Reitor, mas será que esse turbulento e circunstancial processo de escolha (triste direi, devido a morte do nosso caro Cancellier) provocou um debate sobre o que é a UFSC hoje, seu problemas, aspirações e compromissos?

Um reitor que se elege apresentando 452 propostas conseguirá elencar prioridades e delinear politicas universitárias de curto e longo prazo? Conseguirá de fato implementar todas essas propostas em se considerando as limitações de gestão apontadas acima? Com esse número elevado de propostas pode o reitor colocar-se como continuidade de uma gestão anterior interrompida ou é uma outra e nova gestão?

A figura de nosso reitor eleito, também por ter recebido como decano um mandato pró-tempore do CUN, inspira-nos a reconhecer que o mesmo pode exercer esse papel de líder de um “Diálogo Institucional” entre forças políticas universitárias comprometidas com um futuro melhor para a UFSC. Elencar temas comuns e definir estratégias de enfrentamento dos problemas urgentes pode ajudar nossa instituição. Contudo, esse papel de liderança terá maior respaldo e legitimidade com a execução plena do Programa de Gestão que foi eleito, bem como pela execução do compromisso em implementar as outras 10 ações apresentadas pelo movimento UFSC de Verdade - o que inclui, entre outros pontos, o de esclarecer e tomar providências sobre o problema da EaD na UFSC, que desencadeou a operação policial.

Qualquer tentativa de apostar no quanto-pior-melhor, visando obter frutos eleitorais posteriores, é prática política deplorável venha de quem vier. Por isso busco na diversidade de opinião e na minha visão de universidade apontar caminhos que melhorem a instituição - a qual devo muito e com satisfação hoje trabalho como docente. Portanto, de minha parte, aponto sugestões e expresso um vigilante voto de confiança.


Carlos Alberto Marques (Bebeto)
Professor no Departamento de Metodologia de Ensino

Manchete

Olhando com rigor para o funcionamento de nossas universidades federais, UFSC inclusa, perceberemos que o financiamento para a manutenção e o pleno alcance de suas finalidades acadêmicas é determinado não só pelo orçamento da União, mas por verbas de diferentes órgãos públicos e agentes privados. Do orçamento da União, mais de 80% vai para o pagamento de pessoal, o restante para despesas correntes, sobrando pouco para investimentos e praticamente nada em recursos para a expansão de cursos, vagas e/ou estrutura física, que dependem de projetos específicos


Postado

23.abril | 2018 | Carlos Alberto Marques (Bebeto)


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23.abril.2018 - 14:43

Corroboro a análise do Bebeto sobre os "Desafios da gestão universitária". Precisamos realizar a reflexão em nosso cotidiano para poder contribuir com os avanços que são urgentes.

- José Fletes

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